quinta-feira, 31 de maio de 2007

Noite

Fazia frio naquela noite, a lua estava no meio do céu limpo, cercada por corpos celestes. Um cachorro andava pelas ruas desertas de uma cidade.

Ele era negro como a noite que o cobria e seus olhos tinham o mesmo brilho que o frio, sem-vida, sua pata esquerda traseira estava ferida e seu rabo com a ponta torcida.

Seu dia não parecia ter sido fácil, ele andava fraco procurando por comida, mas o caminhão de lixo já tinha levado todos os restos de comida, que os humanos desperdiçam todos os dias, sua única esperança era tentar conquistar algum humano que tivesse pena de sua situação.

O cachorro estava caminhando por uma rua com árvores nas calçadas, algumas casas ao longo da rua, uma igreja na esquina e um poste com luz forte, que ficava na frente de outra casa. Sentou-se em baixo da luz do poste para que ficasse visível ou com a ilusão que aquela luz forte o esquentaria. Foi quando viu um garoto que vinha subindo a rua, em sua direção, o cachorro levantou-se e foi seguindo o garoto.

O garoto começou a olhar para trás, estranhando a reação do cachorro, geralmente vira-latas correm das pessoas, mas esse o seguia. E foi seguindo por duas ruas, parecidas com a que o cachorro estava (sem igreja), até que chegou à casa do garoto.

- Droga. Por que você me seguiu hein? – Perguntou o garoto, olhando para o cachorro, que ficava olhando fixo para ele com aquela cara de coitado.

- Essa cara de coitado é apelação viu? Vou ver o que posso fazer por você. – O garoto abriu a porta e entrou na casa, procurando pelos pais.

- É... velhos, tem um cachorro aí fora, ele ta precisando comida e talvez um lugar pra ficar, ta fazendo muito frio lá fora. Posso botar ele pra dentro de casa ou dar algo pra comer? – perguntou o garoto com uma voz meio tímida.

- Só dar comida. Nós não podemos ter cachorros, você sabe disso. – disse o pai do garoto.

Então, o garoto, foi até a cozinha e pegou dois pães e o molhou com caldo da carne, que havia sobrado do almoço, e levou para o cachorro.

- Aqui está, tudo que deu pra arranjar pra você. Desculpa. – Entregou os pães na boca do cachorro, que comeu tudo e depois se lambeu, como um sinal de satisfeito e, talvez, um agradecimento. Depois o garoto entrou na casa e trancou a porta.

O cachorro, novamente, se viu na solidão e no frio das ruas desertas da cidade. Olhou para os lados e viu uma casa abandonada. Rumou até a casa, entrou nela, viu que só tinha um cômodo com tijolos e um balde no canto da parede, e lá encontrou seu lugar para passar todas as noites frias e solitárias. E sonhou, um sonho misterioso, que só ele conhece... sonhou com sua vida.

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