terça-feira, 5 de junho de 2007

Dia


Ligo a TV, telejornal passando notícias que acabam com a esperança de um futuro melhor. Olho pro relógio, já são 14:27 do dia dezoito de abril, eu não consigo ver o ano. Logo, vem a pior notícia:

- NASA admite que é impossível parar o XM-516, cometa que está em rota de colisão com a Terra. O cometa tem 47km de diâmetro, sendo maior ao que caiu na Antártica a 250 milhões de anos atrás, causando a extinção de 75-90% da vida na Terra. Ele tem a chance de 1 em 10 de chocar-se com a Terra, esse pode ser o fim definitivo para a humanidade, esperemos pelo pior. Colisão prevista em 8 horas.

Ótimo começo de tarde e fim de vida. Vou até a janela e vejo o movimento na rua, após a notícia, pessoas desesperadas, chorando e rezando em grupo... A chuva de fogo, descrita no apocalipse, está perto e com ela o mar de gelo.

Eu deveria estar com um pensamento na mente, aproveitar o resto de vida que me falta, correr nu pela rua, entrar numa geladeira e sair deslizando pela escada, usar todos os tipos de drogas, beber todos os tipos de bebidas, ir à casa da mulher que sempre amei e dar-lhe um último beijo, rir do desespero dos outros e esperar a morte chegar. Mas eu só consigo pensar no futuro, o que virá depois de nós. Será igual no filme IA? Onde os extraterrestres chegam e colonizam um planeta gelado. Baratas tomando conta do mundo, fantasia que sempre me contaram quando era criança, baratas são resistentes a tudo.

Sento-me no sofá da sala, assisto a TV, enquanto tomo um copo d’água. Todos os canais tornaram-se religiosos, todos rezam, esperam por um milagre... Nada mais natural e previsível, humanos são vulneráveis, só pensam que são imbatíveis. Meu telefone não toca, será que ninguém vai querer se despedir de mim? Talvez, meu maior medo seja esse, não ser lembrado por ninguém. Vou tentar ligar para alguém.

Pego o telefone, disco o primeiro telefone, ocupado. Segundo telefone, ocupado. Terceiro telefone, ocupado. Desisto. Vou dar uma saída e ver de perto o desespero.

Fico na porta de casa, observando a rua, está um caos, pessoas olham assustadas pra mim, talvez minha expressão não passe desespero e isso assusta. Uma mulher cai na minha frente, me abaixo para ajudá-la:

- Preciso ir pra casa! Meus filhos! – a mulher gritava desesperadamente.

- Não fique assim, você ainda tem uma hora e meia de vida. Vá tranquilamente e conte histórias para seus filhos até o impacto, conte como esse planeta foi maravilhoso e como você viveu. – disse para a mulher. Mas ela me mandou para um lugar não muito agradável e foi embora correndo, fiquei olhando até ela sumir do meu campo de visão. Ironias nessa hora não foi uma boa idéia.

Vendo todas aquelas pessoas, vi meu sonho indo embora, as histórias que sempre quis escutar iriam se calar para sempre.

20:10. Entrei em casa, novamente, e fui cochilar. Sonhei com o antigo. Acordei, já eram 22:20, cinco minutos de vida me restavam, ninguém me ligara e meu medo virou realidade e meus sonhos de escutar todas as histórias possíveis morreram. Subi em cima da casa e esperei pelo final, já estava caindo, estava perto do chão. O vento começou a soprar mais forte, um vento que trazia um grito homogêneo da população, um grito de morte.

A hora chegou, o barulho emitido era ensurdecedor, uma nuvem de poeira se formava no céu e ondas gigantes, dos oceanos, apareciam no horizonte. Já vi o que queria, voltei para dentro da casa, a TV estava fora do ar. Deitei-me no sofá, fechei os olhos e formaram-se imagens de objetos geométricos, principalmente, triângulos. Dormi.

Estava sentindo muito frio, então acordei. Olhei para os lados e não tinha mais casa, nem vizinhos, nem gritos. Havia apenas, eu, o sofá, o silêncio e uma cidade coberta pela neve.

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