segunda-feira, 28 de julho de 2008

Muletas

Chão quente, o sol está 45 graus à minha direita, já é fim do dia. Caranguejos gigantes, usando muletas, caminham ao meu redor. Seus olhos são de curiosidade, todos me olham como se eu fosse algo bizarro, estranho, extraterreno, mas eu sou humano.

Não consigo mais olhar e tolerar aqueles olhares curiosos, prefiro me abstrair olhando para o nada, o céu. Mas até no “nada” há algo. Ao olhar pro céu, vi uma camisa flutuando e dançando , conforme a música era entoada pelo vento, envolta por um plástico imenso. Fiquei assustado e sem entender como aquilo estava voando, nada o prendia... era a simples liberdade sendo utilizada como sempre deveria ser.

Um caranguejo, que estava caminhando ao meu lado, jogou um lápis grafite ao meu lado e saiu andando como se nada tivesse acontecido. Fiquei olhando-o ir embora e peguei o lápis. Mas o que eu iria fazer com um lápis? Inconscientemente, apontei-o para o céu e comecei a movê-lo de um lado para o outro, como se estivesse desenhando o rabo duma pipa num pedaço de papel. Para minha surpresa, cada movimento criava uma viga metálica no céu e assim foi enquanto movia o lápis. No fim, tinha uma camisa envolta no plástico com um rabo metálico sendo empinada como uma pipa. Larguei o lápis no chão e fiquei contemplando aquilo por um tempo.

Enquanto assistia, senti algo tocar minha mão e era algo muito leve e fino. Segurei e levantei minha mão até chegar ao meu campo visual, era uma linha laranja que me ligava à pipa metálica.

Me levantei e, em pé, fiquei empinando-la. Os caranguejos continuavam me observando, mas agora com mais curiosidade. Parecia que nunca tinham visto uma pipa. Olhei-os e todos tiraram um lápis de dentro da terra, começaram a desenhar o que estavam vendo e outros eu começaram a aparecer, todos empinando algo, mas só existia a minha pipa no céu. Ao completar meus clones, os caranguejos enfiavam suas pinças na barriga deles e de lá tiravam o intestino. Todos os clones viraram pipas, humanos, por mais artificiais que fossem, viraram brinquedos na mão desses crustáceos e com seus intestinos servindo de linha.

Mas por que eu não virei uma pipa? Por que eles não tentaram arrancar meu intestino para me fazer de brinquedo? Por que eles me imitavam?

Ao olhar novamente para minha pipa, vi a imagem de um homem feito de metal e agora aquela linha laranja era seu intestino.

Eu estava empinando meu desejo, o que eu queria ser ou parecer ser. Assim como eles, os caranguejos, queriam ser como eu. Humano?

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